Caetano Veloso está apaixonado. Pelo Bob Dylan. Ele viu esses tempos um documentário sobre o tal beat, aquele do Scorsese, “No Direction Home”. Amor à primeira vista. Nessa mesma época um amigo lhe apresentou uma banda. Pixies. Caetano olhou e disse: “Isso é muito legal... quero engendrar um novo CD a partir disso”. E engendrou: “Cê”.
“Ce”, antes de tudo, é surpreendente. Guitarra indie, letras que falam sobre sexo, mucosas, avião e rata. Influências que vão dos já citados Bob Dylan e Pixies a Sex Pistols. A máxima, em grande parte verdadeira, de que Caetano faz discos chatos para pessoas chatas tem que ser posta um pouco de lado em relação a esse novo trabalho. Apesar das “caetanices” que persistem, de um “engendrado”, de uma “errática”, e outros termos meio forçados, o CD é bom. E pervertido, cheio de duplos sentidos. Tipo, “veio um golfinho do meio do mar roxo/ veio sorrindo pra mim”; “vi você crescer/ fiz você crescer/ vi cê me fazer crescer também/ pra além de mim”; “você foi mor rata comigo”. Boa é essa parte: “veio a maior cornucópia de mulheres/ todas mucosas pra mim”.
Letras a parte, fica claro que “Ce” é CD de produtor. E que o produtor entende bem mais de música do que o Caetano. Talvez esteja aí o mérito do álbum; o produtor (na verdade são os produtores, um deles filho do Caetano) parece ter boas influências musicais, conhece o Velvet Underground e Lou Reed e, não contente em apenas conhecê-los, plagiou os primeiros acordes de “Walk On The Wild Side” na música “Não me Arrependo”. O CD é descarado mesmo, o começo de “Outro”, é quase “Blister In The Sun” do Violent Femmes. “Rocks”, acreditem, é “Girassol” do Ira.
No seu último álbum, “A Foreign Sound”, Caetano quis parecer moderno e acabou consolidando ainda mais sua cafonice. Em “Cê” o cantor parece ter dado a volta por cima e conseguiu – pelo menos no instrumental –, senão soar moderno, não soar cafona.
*não deixe de ouvir “Outro”, “Odeio”, e “Rocks”.